segunda-feira, 18 de junho de 2018

DURMA BEM, DARA


Naquele sábado, durante o tradicional passeio, percebendo sua fraqueza, fiz o caminho de volta com você nos braços, intuindo que aquele seria mesmo o nosso último. Depois de uma segunda-feira difícil, por cautela e zelo, você dormiu conosco no quarto, pela primeira vez na vida. Mas a terça-feira veio com uma péssima notícia: os resultados do seu exame de sangue indicavam uma irreparável falência renal. Na hora do almoço, tendo ao redor a sua família humana, apesar da dor que sentia, você comeu um pouco arroz com carne moída e até mesmo algumas das pipocas doces que tanto gostava. Naquele momento, seu olhar, mesmo cego, irradiava uma tranquilidade de pertencimento quase feliz (foto). No início da tarde, porém, veio o inevitável e anunciado fim. Antes da injeção fatal, num abraço duplo de seus pais, tentando dar-lhe algum conforto, só consegui dizer “durma bem, Dara”, como fiz em quase todas as noites dos últimos oito anos. Foi a última coisa que você ouviu antes de partir.



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

FIM DE UM CICLO

Até segunda ordem, dou por encerrada a minha atividade literária nesse blog. Creio já ter dito tudo o que queria dizer. Agradeço muitíssimo a atenção dispensada. 





quinta-feira, 30 de março de 2017

VOCÊ GANHA DINHEIRO PARA QUÊ?

Outro dia, numa "discussão cafeforiana" (traduzindo: conversa entre amigos no Café do Fórum) disse que gastar dinheiro com certos desejos é bobagem. Então me perguntaram: afinal, você ganha dinheiro para quê? A conversa seguiu. Minutos depois, voltando ao assunto, respondi: ganho dinheiro primeiro para sobreviver e, depois, sobrando, para viver como eu quero. Para viver como eu quero, repito, e não como os outros querem. Isso porque consumimos muito para nos adequarmos aos anseios da maioria, para termos uma satisfação pessoal de poder. Para mim, entretanto, poder é, esvaziando alguns desejos, ter a força e a liberdade de, sem sofrimento, também dizer não a mim mesmo.


sexta-feira, 24 de março de 2017

QUEM PRECISA DE POLÍCIA?

Num mundo ideal, ninguém precisaria de polícia. Bastaria que cada um respeitasse o espaço alheio para que a força policial se tornasse obsoleta e desnecessária. O respeito ao espaço alheio, aliás, é a premissa básica da vida social, e a necessidade de uma instituição cujo objetivo é fazer com que esta seja observada dá a exata noção da falibilidade do caráter humano. Sim, porque precisar de uma corporação que, usando a intimidação e a repressão, preste-se apenas a proteger e a preservar a integridade física e patrimonial de cada um (e de todos) é o reconhecimento de que estamos ainda longe do ideal de civilização.  



quinta-feira, 16 de março de 2017

A ADVOCACIA E A ONCOLOGIA

Para lidar melhor com as frustrações da advocacia, passei a observar meu ofício com os olhos de um médico oncologista. Em regra, somos igualmente procurados quando o mal já está instalado e, apesar do emprego das melhores ações e cautelas, sopesadas e refletidas à exaustão, acontece de não obtermos o resultado desejado. Ficamos à mercê de agentes externos e dos desígnios da própria sorte, muito mais do que gostaríamos. Por isso procuro me concentrar na técnica da execução do meu trabalho e não no seu resultado. Na medicina e na advocacia, as derrotas trazem frustração; já as vitórias trazem sobretudo alívio. 


quinta-feira, 9 de março de 2017

EMPODERAMENTO FEMININO

Não tenho a menor dúvida de que persiste o preconceito contra a mulher. Por outro lado, vejo com reservas o atual feminismo, baseado na ideia do empoderamento das mulheres. Isso porque sou contra a ideologia do poder, ainda que a bandeira erguida seja a da igualdade. Sim, mulheres devem lutar contra a constante opressão masculina, seja ela profissional, sexual ou mesmo simplesmente humana, mas é preciso ter cuidado para que essa nova mulher _segura, liberada, empoderada, mas, por vezes, desleixada, desbocada e intolerante_ não acabe sucumbindo à tentação de ser apenas uma nova versão, igualmente mal acabada, do próprio homem.




  

quinta-feira, 2 de março de 2017

PEQUENAS DECISÕES

A vida é feita de escolhas, não apenas grandes, mas também pequenas, cuja importância por vezes acaba sendo decisiva. Comprar sapatos e atravessar a rua, por exemplo, demandam igualmente pequenas decisões, mas, se mal sucedidas, a segunda terá sempre resultado mais danoso do que a primeira (mulheres irão discordar...). Há também pequenas decisões das quais se desdobram fatos imprevisíveis, mas absolutamente relevantes. No meu caso, tivesse escolhido a PUC e não a Faculdade de Direito de Curitiba, não teria casado com a minha mulher nem teria os filhos que tenho. Ou seja, decidimos nosso destino até mesmo quando não sabemos que estamos.