quarta-feira, 29 de junho de 2011

CIDADE LUZ

Museu, quanto museu
Ponte, estátua, chafariz
Escultura, desenho de croquis
Vidas expostas, intensas
Van Gogh, Monet, Rodin
Tudo é arte, tudo é movimento
Ruas acolhedoras
Cafés na calçada
Andar, conversar
Comer, viver
Beber, sorrir
E mesmo morrer
Verbos infitinivos
Nela definitivos
Genitora dos estilos
Do livre pensamento
Vila dos amantes
Museu, quanto museu
Ponte, estátua, chafariz
Escultura, desenho de croquis
Picasso, Da Vinci, Manet
Passado, presente, futuro
O tempo não passa
Apenas permanece                            
Calmo, intocado
Rimando, misturando
Sensações diferentes
Antagônicas, harmônicas
Sensoriais, banais
Enchendo, preenchendo
Poros, olhos, coração
Com sua doce visão
Com sua doce ilusão
Ces versets sont pour vous
Mon petit Paris.


sábado, 25 de junho de 2011

APARIÇÕES ESPIRITUAIS

Muitas são as histórias de aparições espirituais. Em regra a visão é a de um falecido parente.  Seriam fenômenos sobrenaturais. Mas o que é um fenômeno sobrenatural? Algo que ultrapassa o conceito de natural, segundo o dicionário. Mas sobrenatural também pode ser apenas o que ainda não é natural. Muito do que era sobrenatural passou a ser natural quando se percebeu como e por que ocorre. Uma terrível tempestade, por exemplo, antes era tida como um sinal de fúria dos deuses. A evolução humana, porém, está baseada na desconfiança, na curiosidade e, principalmente, na busca do controle do ambiente. E como todo o conhecimento ainda não nos é possível, criamos realidades emocionais para as lacunas da razão. Em outras palavras,  quando o cérebro não consegue explicar, a emoção se encarrega disso. Volto às visões espirituais. Ocorrem-me duas hipóteses. Uma:  seriam de natureza externa, portanto fenômenos sobrenaturais à espera de futura compreensão científica. Outra:  seriam de natureza interna, uma criativa forma que a psique encontra para, utilizando a credibilidade de quem já se foi, revelar conteúdos da mais profunda inconsciência. Qual proposição estaria correta? Talvez nenhuma delas. Quem sabe esta outra ainda resolva melhor a questão: no creo en las brujas, pero que las hay, las hay...








  

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O SILÊNCIO DA MINORIA







Estávamos no quarto quando ele entrou. Não fazia muito tempo que minha mulher tinha voltado do centro cirúrgico. Ele, no caso, era o pastor, o capelão da clínica. Trazia no semblante a típica e aparente confiança de que tudo no universo está na mais perfeita e absoluta ordem. Foi logo dizendo gracejos amenos para facilitar a aproximação, que não tardou. Ao lado da cama, buscando uma das mãos de minha mulher, disse em tom grave e imperativo: "Vamos agradecer a Deus porque foi graças a Ele que tudo correu bem". Nosso constrangimento, que já era grande, chegou então a níveis críticos. Resistimos silentes, temendo que ele iniciasse uma oração ou algo parecido. Ele, porém, sem desistir, nos ofereceu folhetos com palavras de fé, recomendando a leitura.  Mais silêncio. Foi aí que comentei sobre a demora do almoço. Finalmente o visitante nos deixou. Pergunto: por que a maioria acha que todos têm uma crença religiosa? Respondo: porque é assim que as maiorias agem, simples. Por isso as minorias sabem que o menos danoso, às vezes, é engolir o constrangimento e simplesmente calar.




sexta-feira, 10 de junho de 2011

PRECONCEITO



Se o preconceito é um conceito prévio, seria correto dizer que ele nasce de uma experiência de vida. Seria mas não é. O preconceito é uma perspectiva torta,  baseada numa presunção simplista de que é possível julgar pessoas pela superfície e não por seu conteúdo. O preconceito é um sintoma de desajuste emocional diante da vida que pode ser reforçado por imitação ou pelo desejo de aceitação. Não adianta negar: todos temos preconceito, ainda que por objetos e intensidades distintas. E por ser algo que vai muito além do raciocínio consciente, campanhas governamentais de conscientização não alcançam seu objetivo, tampouco a criação de cotas sociais trazem bons frutos, quer seja por partirem da premissa preconceituosa de tratar iguais de modo desigual, quer seja pelo desserviço à auto-estima daqueles a quem se quer beneficiar. Não cabe ao Estado a pretensão de ensinar a viver; a sociedade já tem mecanismos para coibir e punir a violência contra qualquer pessoa, ainda que por vezes ineficientes. Nota: disse qualquer pessoa porque esta condição se sobrepõe a qualquer outra qualificação. A questão não é viver sem preconceito, isso não é possível, mas de viver em sociedade apesar do preconceito. 

segunda-feira, 30 de maio de 2011

RIO DE JANEIRO



O que me impressiona na cidade do Rio de Janeiro não é seu apelo turístico, um tanto superestimado a meu ver. Tampouco sua violência, igualmente superestimada, já que, além de setorizada, tem nome e sobrenome. Também não é a arquitetura dos prédios de Copacabana, colados demais para meu gosto.  Não, não é o centro da cidade, muito mais decadente do que charmoso. O que me impressiona na cidade do Rio de Janeiro é que lá as pessoas gostam de viver a vida da cidade. Explico: no Rio, ao contrário de outras metrópoles brasileiras, o outro não representa uma ameaça em potencial, mas alguém pronto para se trocar palavras amistosas. Nas chamadas horas livres, as ruas cariocas estão repletas de pessoas que, transitando livremente, aproveitam o que a cidade tem de melhor, que são as próprias pessoas, vivas, sonoras, alegres. Restaurantes e bares se estendem sem medo até às calçadas. Grata surpresa: lá ainda existe cinema com portas voltadas para a rua. Que bela e nostálgica visão. É justamente essa vida espontânea, humana, que os shoppings tentam, sem sucesso, recriar. Amo minha cidade, Curitiba, mas confesso que neste último fim de semana,  distraído, imaginei-me desfrutando diariamente de toda a vida alegre que circula solta pelas ruas do Rio de Janeiro.

domingo, 22 de maio de 2011

Um mundo sem Deus


Dizem que sem Deus o mundo seria caótico, sem regras e sem sentido.  Mas neste mundo com Deus (e suas inúmeras religiões) há mais discórdia que entendimento, mais ódio que amor, mais preconceito que aceitação, mais julgamento que perdão. Em contrapartida, a ciência, ora desdenhada ora perseguida pela fé, tenta tornar possível e compreensível a vida sem Deus. Mas essa tarefa é inglória quer seja por conta do nosso infinito desamparo, quer seja por não haver ferramenta de domínio mais eficiente do que a chancela divina. Deus é, portanto, não apenas a esperança de triunfo sobre a morte, mas principalmente a personificação do desejo que habita o coração humano de a tudo  e a todos controlar, até mesmo quando se pratica o bem. Simples assim: se não posso controlar tudo, meu Deus pode. Então ouso sonhar com um mundo sem Deus, sem a triste ambição do pensamento preso a uma só verdadeSonho com uma vida natural que se baste e se encerre em si mesma. Sonho com uma vida impossivelmente humana.




domingo, 15 de maio de 2011

MINHA ESCRITA


Não escrevo para os outros. São os meus fantasmas que espreito, flerto, tento espantar. Escrevo sobretudo para tentar me localizar no tempo, no espaço, nas emoções. Nessa empreitada meu cérebro é um ouvinte atento do que o coração dita. Só assim um texto tem textura, cor e profundidade. Parêntesis: raramente faço citações. Não acho que a transcrição de uma bela frase vá melhorar meu conteúdo nem dar-me prestígio. Ao contrário, se necessito do socorro alheio é porque justamente me faltam conteúdo e prestígio. Voltando: mas mesmo o coração precisa de regras. Então busco a escrita cujo conteúdo traga misto de prazer e desconforto e, em sua forma, seja breve e inteligível.  Disse antes que não escrevo para os outros. Não é bem assim. Sou, sim, um mendigo com a mão estendida esperando um comentário, um elogio, um aplauso. Mas este sou eu; não minha escrita.